Este texto foi escrito para um concurso promovido pela Unesco, voltado a estudantes de graduação, tendo como tema a solidariedade.
Na época, a redação foi selecionada entre as 300 melhores e avançou até a etapa final, realizada na Academia Brasileira de Letras.
Apesar de não ter chegado à etapa final de publicação na antologia, o processo marcou profundamente minha trajetória de escrita, tanto pelo tema quanto pela experiência de produção sob tempo e avaliação.
Mantive este texto como registro desse momento.
A solidariedade apresenta-se na sociedade atual como uma possível solução para o panorama de incertezas e inseguranças em que vivemos.
Ao ajudarmos uns aos outros, desaceleramos a máquina do pessimismo que nos leva a crer que o amanhã tende a ser sempre pior, que apenas podemos contar com nosso próprio esforço para enfrentar as adversidades.
Por outro lado, ações solidárias não dependem somente da boa vontade daqueles que desejam praticá-las. O desejo de ajudar certamente é a mola propulsora das ações, porém o próprio sentimento de dúvida em que vivemos nos faz temer a realização de alguns atos que, por sua bondade intrínseca, deveriam ser isentos de receio, além, é claro da falta de tempo que impede o exercício da ajuda humanitária.
Hoje em dia é difícil falar em falta de solidariedade sem pensar na insegurança da população frente aos acontecimentos negativos e do ritmo intenso do dia-a-dia.
Inúmeros casos poderiam ilustrar esse panorama no que diz respeito ao medo como inibidor da solidariedade, como, por exemplo, a doação de sangue, amplamente requisitada pelos órgãos competentes: o número de pessoas que gostariam de ajudar aqueles que necessitam é imensamente maior do que o observado na prática. Isso se deve ao medo que muitos têm de contrair doenças durante o processo da doação. Desse exemplo, pode-se tirar também mais um fator negativo que inibe a solidariedade: a falta de informação. Hoje se sabe que este medo é destituído de fundamento, porém poucos têm essa consciência.
Podemos citar, também, o antigo costume de distribuir refeições para moradores de rua durante o inverno. Atualmente, poucos são aqueles que o fazem. Raros são o que abdicam da segurança de seus lares correndo o risco de serem agredidos até pelos próprios moradores que desejam ajudar.
No tocante às ações que não causariam nenhum tipo de medo naqueles que decidissem praticá-las, deparamos-nos com outro grande problema: a falta de tempo para se dedicar ao próximo.
Num mundo em que a população, em sua grande maioria, trabalha mais de oito horas diárias, é difícil encaixar no curto tempo que sobra mais do que o que se necessita para si mesmo. Não só a falta de tempo é empecilho à solidariedade no que se refere à rotina de trabalho, como também o cansaço diário.
E o desgaste físico não impede apenas a visita a um orfanato ou algumas horas dedicadas a um hospital do câncer, por exemplo. Também o simples ato de ceder o lugar num ônibus a pessoas idosas ou deficientes esbarra nesse problema. Alguns não o fazem por terem trabalhado o dia inteiro em pé. Culpam-se pela omissão, mas a fadiga fala mais alto.
Conclui-se que para a solidariedade ser praticada num nível maior e que sirva de exemplo para as gerações futuras, a violência urbana deve ser combatida e os meios de comunicação utilizados para esclarecer qualquer dúvida da população que seja impedimento para fazer o bem. Falta de tempo sempre existirá e será difícil extingui-la, porém, diminuindo os outros obstáculos, a consciência solidária tende a melhorar muito.
Comentários